Wednesday, December 12, 2012

Tudo vale a pena, mesmo quando a alma é pequena

Afirma a sabedoria popular que o inferno está cheio de boas intenções. Não posso sequer imaginar entre as chamas eternas a boa senhora Cecilia Gimenez, de Borja, Espanha, católica exemplar, frequentadora constante do Santuário da Misericórdia, a igreja local, e sempre pronta a praticar a caridade. Bem, quando a citada igreja viu que absolutamente não dispunha de verba para patrocinar a restauração do afresco Ecce Homo, do Pintor Elías García Martínez (1858-1934), a boa senhora, cheia das citadas boas intenções, tomou a si a tarefa de devolver o brilho perdido à divina face.
Quando o Salvador já estava a meio caminho de tornar-se um espantado esquimó fixado numa tampa semi aberta de lata de sardinha, o trabalho foi interrompido. Mas a notícia já correra mundo, ganhando o título de a "pior restauração da história". Mas, vejam só, as coisas estão melhorando. Mesmo estando a Espanha numa crise econômica inaudita, turistas afluem à igreja de todos os lados. O Santuário da Misericórdia passou a cobrar ingresso e arrecadou 2.000 euros só na primeira semana. Agora é a Cecilia Gimenez quem bota um de seus quadros para vender no eBay. Já recebeu lances de até 400 euros. O dinheiro, afirma ela, irá para a organização de caridade Charitas.
Acho que vou até o Prado oferecer-me para restaurar alguma coisa.


Tuesday, October 9, 2012

Um resumo interessante da arte britânica



Sou velho. Com a casmurrice típica dos velhos, sempre lamento a perda do tempo em que dispúnhamos de vários bons jornais diários, jornais de verdade, ou seja, de papel. No Brasil, a ditadura se encarregou de acabar com a maioria, sobrando apenas seus "órgãos oficiais": Folha de São Paulo, Globo, etc. No resto do mundo, a economia e as novas tecnologias cumpriram tal função.
O britânico The Guardian ainda resiste, no papel e na virtualidade. Como aqui em Pindorama não tenho acesso à edição no velho suporte gutenberguiano, frequento-o na Internet. E encontro muita coisa interessante por lá. O jornal inglês lançou hoje uma galeria interativa com um resumo da arte britânica, que vai, segundo eles, de Stonehenge a Lucian Freud e Francis Bacon. Vale a pena visitar. Confiram. A foto acima é de um quadro do pré-rafaelita John William Waterhouse, chamado A Lady de Shalott, personagem de um poema de Alfred Tennyson.

Monday, October 8, 2012

Pichação é coisa antiga

Conta-nos o The Guardian que lá em Valência, na decadente Espanha, quando restauradores retiraram um teto falso da catedral da velha cidade, depararam com um belíssimo afresco de Paolo de San Leocadio, mestre renascentista, pintado no século XV, por encomenda do cardeal Rodrigo Bórgia, que mais tarde se tornaria o afamado (ou mal-afamado) papa Alexandre VI, pai dos enfants terribles César e Lucrécia Bórgia. Até aí nada demais, todo papa da época favoreceu as artes como contratador e as morgues como fornecedor. O problema é que operários do século XVII, mais especificamente de uma obra realizada em 1674, usaram o afresco, que viria a ser coberto, como base de testes para o gesso que empregavam, sujando-o todo. Criativos que eram, tais operários tascaram bem em cima de um anjo do Senhor aquilo que o educado jornal chamou de "um conjunto completo de genitália masculina". Contribuição à inconclusa controvérsia teológica sobre o sexo desses mesmos anjos? Ou apenas seguiram a tendência vigente nas escolas, onde dez entre dez juvenis artistas de banheiro optam pelo mesmo motivo pictórico? Não sabemos. Nem podemos examinar o corpus delicti, visto que não publicaram foto do tal "conjunto". Mas que ninguém mais afirme que as pichações são um tipo de vandalismo nascido no século XX. Ver mais aqui.

Thursday, October 4, 2012

Retratando o que realmente é

A cultura estadunidense tem uma particularidade, ela retrata o próprio país como acha que ele é, não como demonstra a realidade. Hollywood tem muito a ver com isso, mas bem antes das estrelas da sétima arte brilhares nas telas, outras pessoas que deveriam ser mais sérias faziam o mesmo. Por isso, senhores de escravos como George Washington, Thomas Jefferson ou Benjamin Franklin puderam fazer uma Declaração de Independência falando em terra da liberdade. Tal como nossos sinhozinhos de engenho, Washington e Jefferson só se lembravam das senzalas em suas casas quando queriam servir-se de uma escrava sexualmente. Para ver imagens mais realistas dos EUA, é preciso voltar muito, muito atrás.
Segundo Hollywood, os índios de lá sempre usaram roupas dos pés à cabeça, cheias de franjinhas nas mangas e nas calças, um reco-reco pendurado ao peito e cocar circular de penas na cabeça. Ao contrários dos nossos índios, que viviam pelados e mereciam o epíteto de "selvagens". Bem, não era exatamente assim. Os índios de lá andavam tão pelados, e pareciam tão "atrasados", quanto os nossos, quem os vestiu nas telas foi o puritanismo hipócrita. John White, um colono inglês que retratou várias cenas com índios por volta de 1585, é quem nos mostra.
O mais curioso, tanto nas aquarelas de John White, quanto em quadros semelhantes de Eckhout ou Thevet retratando o Brasil, é a prevalência do princípio identificado pelo historiador da arte Ernst Gombrich em seu livro Arte e Ilusão: um pintor pinta o que aprendeu a pintar. Pois em todas essas pinturas os americanos, tanto do sul quanto do norte, têm uma indisfarçavel anatomia renascentista, assumindo poses que só vemos em estátuas clássicas.
Vale a pena dar uma olhada no sítio de onde tirei essa ilustração, que mostra nativos da Carolina do Norte. Aqui.

Thursday, June 17, 2010

Ainda bem que ele pintou uns quadros

Tem gente que adora remexer em coisas que já estão mais que assentadas. Coisas como o destino do Michelangelo, não o Buonarroti, mas o Merisi, mais conhecido pelo nome da aldeia lombarda em que nasceu, Caravaggio. Ele, como sabemos, era brigão, não levava desaforo para casa e, de quebra, distribuia-os com liberalidade. Assim, no melhor de sua fase romana, teve de fugir da Cidade Eterna para não ser preso por crime de morte. De fuga em fuga, Caravaggio acabou morrendo jovem, à míngua de todo socorro humano, como então se dizia. Azar dele, mais ainda nosso, mas finalmente encontrara a paz.
Vem então o Silvano Vinceti, o tal remexedor do que não deve, e se põe a desenterrar ossos no pequeno cemitério de San Sebastiano, na igualmente exígua vila de Porto Ercole, onde, dizem, o mestre do chiaroscuro fora enterrado. Desenterrou meia dúzia de ossadas e, usando métodos altamente científicos (provavelmente o uni-du-ni-tê), escolheu uma delas. Daí concluiu que a principal causa da morte do pintor foi o envenenamento por chumbo.
Ser morto por chumbo não é exatamente um exclusivismo, embora a maioria das vítimas deste metal pesado não tenha tempo de se envenenar. Mas e daí, se Caravaggio não morreu apenas pelos ferimentos de sua derradeira briga, dizem que encomendada pelos parentes do homem que ele matara em Roma? Para a arte, isso tem a mesma importância da famosíssima orelha do Van Gogh: nenhuma. Mas se nem o digno, probo e refinado Pico della Mirandola escapou da xeretice do Silvano, que também atribuiu a morte do filósofo ao veneno, por que o coitado do Caravaggio, cheio de culpas no cartório, escaparia?
Dele, materialmente, restaram apenas os poucos ossos da foto acima (se é que são dele). Deixemos que o Silvano Vinceti cuide dos ossos, nós cuidaremos de sua arte.

Wednesday, November 18, 2009

A desditosa e eterna Inês de Castro

Noticiam os jornais que, em França, casaram-se recentemente Magali Jaskiewicz e Jonathan Goerge. Bem, até aí nada demais. O curioso é que o Jonathan já morrera, Magali o exumou, metaforicamente, só para participar da cerimônia, mercê de um dispositivo do código civil francês que permite o casamento com pessoa falecida, caso já houvessse ela oficialmente dado início ao processo formal para realizar a união.
Ora, não disponho dos necessários engenho e arte para cantar com mestria os feitos lusíadas, mas, convenhamos, a inovação é portuguesa. D. Pedro, o Cru, já tinha feito o mesmo com Dona Inês de Castro, com a vantagem de que a defunta nubente compareceu à cerimônia. Afirmam os cronicões que os presentes tiveram de beijar a mão levemente putrefata da noiva, mas calam sobre se houve sexo na primeira noite - ou nas subsequentes...

Monday, September 21, 2009

Para todos os gostos

A hipocrisia sempre domina quando o homem quer dominar. Seja com o boçal Bush ou com o ominoso Berlusconi, a nudez é a primeira vítima. Não sabemos se Bush considerava a tímida nudez de algumas estátuas existentes em Washington realmente uma ameaça; sabemos que se Berlusconi tinha alguma coisa contra a nudez (que ele mandou cobrir) no afresco de Tiepolo em seu gabinete era apenas que ela não fosse a de uma ninfeta de verdade que ele pudesse beliscar. Se um continua casto no Texas e se o outro é um sátiro na Sardenha, pouca diferença faz para a nudez na arte, sempre demonizada como indecente, para que a verdadeira indecência dos acusadores passe despercebida.
E os artistas, como ficam? Não sei, mas ficariam bem melhor se fossem pragmáticos. Vicenzo Gemito não é uma dos mais famosos escultores da arte italiana, mas foi bem conhecido na segunda metade do século XIX. Ele procurou inspiração nos grandes da Renascença, como Verrocchio, Donatello e Giambologna, assim como foi muito influenciado pelas estatuetas então recém descobertas em Pompeia e Herculano. Querendo criar uma estátua que representasse as crianças pobres de sua Nápoles natal, os scugnizzi, como eram chamados por lá, criou o Aguadeiro (Acquaiolo). Entretanto, fez duas versões: numa, o garoto está nu; na outra, em tudo semelhante à primeira exceto por um detalhe, o garoto está usando calções.
A versão pelada foi exposta e terminou num museu. A vestida, foi dada de presente a Francesco II, rei de Nápoles deposto durante a reunificação italiana. Está certo que tal rei destronado vivesse de mal humor, mas daí a implicar com a nudez sem pelos de um garoto já o configura como precursor da paranoia atual que vê "pornografia infantil" por todo lado . Então, sabendo das coisas, o Gemito se preparou para satisfazer todos os gostos - ou desgostos...